A PRÁTICA
EVANGELIZADORA DE JESUS REVELADA
NOS EVANGELHOS
Frei Carlos
Mesters, O.C.
Jesus é a fonte e o modelo da
ação evangelizadora dos cristãos. Como tal ele nos é apresentado nos
Evangelhos. Os Evangelhos descrevem como Jesus, após trinta anos de convivência
e de trabalho em Nazaré, anunciou a Boa Nova de Deus ao povo do seu tempo. Qual
foi a prática que Jesus adotou para realizar sua missão evangelizadora?
Qual foi o conteúdo? Qual a finalidade? Qual a fonte da
Boa Nova do Reino? No que segue, queremos responder a estas quatro perguntas.
1. A PRÁTICA
EVANGELIZADORA DE JESUS
Os estudos históricos mostram e
os Evangelhos e confirmam: Jesus vivia em uma época profundamente conflitiva,
num país irremediavelmente dividido. Havia fome, pobreza e muita doença; havia
gente explorada por um sistema injusto (Lc 22,25), com desemprego,
empobrecimento e endividamento crescentes (Mt 6,12;18,24. 28-34; 20,3.6; Lc
16,5); havia classes altas, comprometidas com os romanos na exploração do povo
(Jo 11,47-48; Lc 20,47) e poderosos ricos que não se importavam com a pobreza
dos irmãos (Lc 15,16; 16,20-21); e havia grupos de oposição aos romanos que se
identificavam com as aspirações do povo (At 5,36-37);
havia muitos conflitos e tensões
sociais (Mc 15,6; Mt 24,23-24) com repressão sangrenta que matava sem piedade
(Lc 13,1); havia a religião oficial. Ambígua e opressora, organizada em torno
das sinagogas e do templo (Mt 23,4.23-32; Mt 21,13); e havia a piedade confusa
e resistente dos pobres com suas devoções, romarias e práticas seculares (Mt
11,25; 21,8-9; Lc 2,41; 21,2). Numa palavra, havia conflitos nos vários níveis
da vida da nação: econômico, social, político, ideológico, religioso. O povo
estava sem condições de reencontrar a unidade.
Jesus não se manteve neutro. Em Nome
de Deus, tomou posição. Assim.
Através da sua atitude, a Boa
Nova de Deus se fez presente na vida do povo. O anúncio da Boa Nova, é antes de
tudo, uma nova prática, fruto da experiência que Jesus tinha do Pai e que o
levava a tomar determinadas atitudes. Seria longo demais descrever todos os
aspectos da prática evangelizadora de Jesus. Enumeramos apenas os mais importantes
e os mis evidentes.
· Jesus convive
com os marginalizados e os acolhe
Nos três anos de sua vida
itinerante, Jesus conviveu a maior parte do tempo com aqueles que não tinham um
lugar dentro do sistema social e religioso da época.
Ele passou a ser conhecido como
“o amigo dos publicanos e dos pecadores” (Mt 11,19). Acolhia os que não eram
acolhidos: os imorais (prostitutas e pecadores), os hereges (samaritanos
e pagãos), os impuros (leprosos e possessos), os marginalizados
(mulheres, crianças, doentes de todo tipo), os colaboradores (publicanos
e soldados), os fracos (o povo da terra e os pobres sem poder). Jesus
falava para todos. Não excluía ninguém. Mas falava a partir dos pobres e dos
marginalizados.
O apelo que resulta desta atitude
evangelizadora é muito claro: não era possível alguém ser amigo de Jesus e, ao
mesmo tempo, continuar apoiando o sistema que marginalizava tanta gente em Nome
de Deus. De fato, Nicodemos (Jo 7,52), José de Arimatéia (Mt 27,57-58) e Zaqueu
(Lc 19,8) sentiram na carne o que quer dizer romper com o sistema em que
estava, inseridos, e aderir a Jesus. O próprio Jesus, por causa dessa atitude
que acolhia os marginalizados, entrou em conflito com os grupos de liderança da
sociedade: os fariseus, os escribas, os saduceus, os herodianos, os romanos. Este conflito foi a cauda da sua
morte (Mc 3,6).
· Jesus denuncia e
combate as divisões criadas pelo homem
No meio do povo, havia muitas
divisões, mantidas em nome de Deus pela própria religião oficial. Elas
contradizem a vontade do Pai. Jesus criticou estas divisões e as combateu
através da sua maneira de viver e de agir. Por exemplo, as divisões entre
próximo e não-próximo
(Lc 10,29-37), entre santo e pecador (Mc
2,15-17), entre puro e impuro (Mc 7,1-23), entre judeu e estrangeiro (Mt
15,21-28).
Condenando estas divisões, Jesus
relativizava e sacudia as pilastras do sistema religioso: o templo, o sábado,
as obras santas (jejum, esmola, oração), a pureza legal.
Sua prática evangelizadora
incomodava profundamente os homens do poder.
Por outro lado, ele convidava e
provocava as pessoas a se definirem em face dos valores fundamentais da vida
humana e do Projeto de Deus: justiça, fraternidade, amor, misericórdia,
partilha, honestidade. O sistema religioso da época não dava atenção a estes
valores. Alguns aceitaram o convite de Jesus, outros o rejeitaram. Assim Jesus
se tornou fonte de novas divisões (Mt 10,34-36) e sinal de contradição no meio
do povo (Lc 2,34).
· Jesus desmascara
a falsidade dos grandes
Jesus não teve medo de denunciar
a hipocrisia dos líderes religiosos da época: sacerdotes, escribas e fariseus
(Mt 21,1-36; Lc 11,37-52; Mc 11,15-18). Condenou a pretensão dos ricos e não
acreditava muita na sua conversão (Lc 16,31; 6,24; Mt 6,24; Mc 18,24-27;
12,13-21). Diante das ameaças dos representantes do poder político, seja dos
judeus como dos romanos, Jesus não se intimidava e mantinha uma atitude de
grande liberdade (Lc 13,32; 23,9; Jo 19,11; 18,23).
· Jesus combate os
males que estragam a vida humana
Deus criou a vida e a abençoou
(Gn 1,28). Por própria culpa, a humanidade perdeu a bênção e atraiu sobre si a
maldição (Gn 3,14-14). Deus interveio e chamou
Abraão para ser pai de um povo
com a missão de recuperar a bênção perdida não só para si e sua própria família, mas também
para todas as famílias da terra (Gn 12,3).
Jesus retomou a vocação inicial
do povo de Abraão e tentou recuperar a bênção para a vida humana. Ele disse: “Eu
vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
Por isso faz parte da prática evangelizadora de Jesus libertar a vida de todos
os males que a oprimiam e marginalizavam. Assim ao longo dos três anos da sua
vida pública, ele enfrentou e combateu a fome (Mc 6,35-44), a doença (Mc
1,29-34), a tristeza (Lc 7,13; Mt 5,5), a ignorância (Mc 1,27), o abandono (Mt
9,36), a solidão (Mc 1,40-41; 5,34), a letra que mata (Mc 3,4. Mt 5,38-42), as
leis opressoras (Mc 7,8-13), a injustiça (Mt 5,20), o medo (Mc 6,50), o
sofrimento (Mc 6,55-56), o pecado (Mc 2,5), a morte (Mc 5,41-42; Lc 14,1-8). Ele
combateu e expulsou o demônio, o príncipe dos males. Pois “desde o começo
não era assim” (Mt 19,8).
· Jesus usa uma
nova pedagogia que faz o povo crescer
A novidade da prática
evangelizadora de Jesus transparece, sobretudo no novo jeito que ele tem de se relacionar
com as pessoas e de ensinar as coisas: Dá atenção às pessoas sem fazer
distinção (Mt 22,16); ensina em qualquer lugar, acolhe todos como ouvintes e
permite que mulheres o sigam com discípulas (Lc 8,1-3; Mc 15,41); usa linguagem
simples em forma de parábolas; reflete a partir dos fatos da vida (Lc 21,1-4;
13,1-5; Mt 6,26); confronta os discípulos com os problemas do povo (Mc 6,37);
ensina com autoridade sem citar “autoridades” (Mc 1,22); apresenta crianças
como professoras de adultos (Mt 18,3); sendo livre, comunica liberdade aos que
o cercam
(Jo 8,32-36), e estes, por sua
vez, criam coragem para transgredir tradições caducas (Mt 12,1-8). Jesus vive o
que ensina; passa noites em oração (Lc 5,16; 6,12; 9,18.28; 22,41) e suscita nos outros a vontade de
rezar (Lc 11,1).
· A Boa Nova do
Reino se encarna numa convivência humana
A prática de Jesus revela uma
nova visão das coisas, um novo ponto de partida, uma nova ordem. Os valores
básicos dessa nova ordem aparecem encarnados na pequena comunidade itinerante
que se formou ao seu redor. Eis alguns deles: partilha dos bens ou caixa comum
(Jo 13,29); igualdade básica de todos: “Vocês
todos são irmãos” (Mt 23,8-10); poder como serviço: “Quem quiser
ser o primeiro seja o servidor de todos” (Mc 9,35; Mt 20,24-28); Jo
13,14; Mt 23,11); convivência amiga a ponto de não ter mais segredos (Jo
15,15); novo relacionamento homem-mulher (Mt 19,1-9).
Estes pontos nos dão uma idéia de
como era a prática evangelizadora de Jesus.
Nela se revela a experiência que
ele mesmo tinha do Pai. Através do gesto e da atitude de Jesus, o povo se dava
conta de que o Deus de Jesus era diferente do deus dos escribas. Através da prática de Jesus,
Deus se tornou uma Boa Nova para o povo.
2. UM RESUMO DO
CONTEÚDO DA BOA NOVA DO REINO
O Evangelho de Marcos oferece o
seguinte resumo do conteúdo da Boa Nova de Jesus: “Depois que João foi
preso, veio Jesus para a Galiléia proclamando o Evangelho de Deus!
Esgotou-se o prazo, o Reino de Deus chegou! Mudem de vida e acreditem na
Boa Nova” (Mc 1,14-15).
Vamos meditar cada um destes
quatro pontos: “Esgotou-se o prazo! O Reino de Deus chegou! Mudem de vida!
Acreditem na Boa Nova!”.“ESGOTOU-SE O PRAZO!”
· Jesus lê os
fatos com olhos novos, nascidos de Deus
Para Jesus, a prisão de João
Batista fez o prazo se esgotar. Fez o kairós de Deus chegar! Isso mostra
que Jesus ficava atento aos fatos e aos tempos e os analisava com olhos
diferentes. Por isso conseguiu perceber neles a ação de Deus.
Esta mesma atitude diante dos
fatos verifica-se em várias outras ocasiões. Por exemplo, ele interpela os
apóstolos: “Vocês dizem que faltam quatro dias para a colheita. Mas
eu digo, levantem os olhos e vejam os campos. Eles estão brancos para a
colheita!” (Jo 4,35). E aos fariseus e saduceus ele responde: “Ao pôr-do-sol
vocês dizem: ‘Vai fazer bom tempo, porque o céu está vermelho’. E de
manhã: ‘ hoje vai chover, porque o céu está vermelho-escuro’. Olhando o
céu, vocês sabem prever o tempo, mas não são capazes de interpretar os
sinais dos tempos” (Mt 16,2-3; cf Mt 24,32; Lc 12,54-56). A leitura
diferente dos fatos ajudou Jesus a perceber a chegada do Reino.
· Jesus ajuda o
povo a ler os fatos com olhos novos
Jesus quer que todos descubram a
Boa Nova do Reino. Por isso, percorre o país e convoca o povo. Ele envia doze
discípulos (Mt 10,1; Lc 9,1). Mais tarde, envia outros setenta e dois (Lc
10,1). Todos devem levar o mesmo anúncio: “O Reino de Deus chegou!”
(Lc 1,9; Mt 10,7). Pois a colheita é grande, os operários são poucos e o tempo
urge (Mt 9,35-38).
Jesus ajuda o povo a ler os fatos
com os mesmo olhos diferentes: faz refletir a partir do que acontece (Lc
13,1-5); manda estar atento, pois ninguém sabe quando chega hora (Mt 24,42);
ajuda o povo para não ser enganado (Mt 24,4.11.26); critica interpretações
erradas (Jo 9,2-3).
Através das parábolas procura
levar o povo a ter um olhar crítico sobre
realidade do país e sobre a sua prática religiosa. Por exemplo, as
parábolas do fariseu e do publicano (Lc 18,9-41), dos dois filhos (Mt 21,28-32),
do bom samaritano (Lc 10,29-37). Deste modo, Jesus ajuda o povo a discernir,
entro dos fatos, os sinais do reine de Deus que vem chegando.
Nem todos aceitam a interpretação
que Jesus faz dos fatos. Os fariseus e os saduceus não sabem ler os sinais dos
tempos e o combatem (Mt 16,1-4). Jerusalém e as cidades da Galiléia se fecham
(Lc 13,34-35; 10,13-15; 19,42). Os pobres, porém, e os discípulos reconhecem e
aceitam a mensagem (Mt 11,25; 13,11). “O REINO DE DEUS CHEGOU”
· A novidade que
causa admiração
Naquele tempo, todos esperavam a
vinda do Reino de Deus, mas cada um a seu modo. Para os fariseus, o Reino viria
quando a observância da Lei de Deus fosse perfeita; para os essênios, quando o
país fosse purificado. O povo, orientado pelos escribas e pelos fariseus,
esperava a vinda de um messias glorioso. Jesus, porém, já não esperava pela
vinda do Reino de Deus. Para ele, o Reino já estava chegando!
Esta era a novidade! Qual a
análise que Jesus fez para chegar a esta conclusão? Onde estava o Reino de que
ele falava? Pois a observância da Lei de Deus ainda não era perfeita; o país
ainda não estava purificado. E não havia nada de glorioso para se poder
concluir: “Este é o Reino!”. Por isso, os fariseus o questionaram: “Queremos
ver um sinal feito por ti!” (Mt 12,38; Mc 8,11). Quais os sinais? (Lc
17,20).
Jesus não dá nenhum, sinal nem
prova (Mt 12,39-40). Para os outros, a chegada do Reino dependia do esforço que
eles mesmos teriam de fazer. Dependia da observância da Lei de Deus, da
purificação da terra, ou da luta. Jesus dizia o contrário: “O Reino de Deus
não vem como fruto da observância, mas ele já está no meio de vocês!”
(Lc 17,20-21). Independentemente do esforço feito, o Reino já tinha chegado! A
sua chegada não dependia do esforço humano, mas era pura gratuidade.
Esta era uma maneira radicalmente
nova de encara a vinda do Reino.
Jesus não diz em que consiste o
Reino. Diz apenas que o Reino já chegou. Se já chegou, então o Reino devia
estar presente e visível nas coisas que Jesus andava fazendo e dizendo: “Vão
dizer a João o que estão vendo e ouvindo: cegos vêem, coxos andam,
leprosos são limpos, surdos ouvem, mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados”
(Mt 11,5-6). “Se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, então
o Reino de Deus já chegou até vocês!” (Lc 11,20).
· Uma nova leitura
da Escritura
Para ajudar o povo a perceber a
presença do Reino nele mesmo e nos fatos, Jesus usava a Bíblia e a interpretava
de maneira nova. A experiência que ele tinha de Deus lhe dava olhos novos pra
entender melhor a ação de Deus no passado e era nele uma luz para iluminar o
sentido da Escritura. Assim, iluminada pela Bíblia, a Boa Nova do Reino
aparecia aos olhos do povo não como bastarda e impostora, vinda de fora, mas
como filha nascida em casa, como fiel à Tradição, como realização da Promessa.
Eis alguns dos momentos em que
Jesus faz esta nova leitura da Escritura:
a)
Na
sinagoga de Nazaré, ele usa um texto de Isaías para apresentar o seu programa
(Lc 4,18-19; Is 61,1-2). E conclui: “Hoje se cumpriu nos vossos
ouvidos esta passagem da Escritura” (Lc 4,21);
b) O recado que mandou para João
Batista (Mt 11,5-6) era de um outro texto de Isaías. A profecia de Isaías se
realiza na ação de Jesus junto dos pobres (Is 29,18-19; 35,5-6);
c) No sermão da montanha Jesus
esclarece o objetivo que Deus tinha em mente ao dar os Dez mandamentos ao povo:
“Antigamente foi dito (...), mas eu digo (...)” (Mt
5,21.27.31.38.43);
d) Jesus critica o Templo de
pedra, o centro do Antigo Testamento, e o declara como provisório. Pois o novo
Templo será ele mesmo, o seu corpo (Jo 2,19-21), onde todos poderão adorar o
Pai em espírito e verdade (Jo 4,23);
e) Aos discípulos de Emaús ele
mostra, “começando por Moisés e por todos os profetas”, o que a
Escritura dizia a respeito dele. Deste modo, ele situa a cruz dentro do
projeto de Deus
(Lc 24,27);
f) Quando perguntado para dar um
sinal, ele fala de Jonas e de Salomão e conclui: “Aqui está algo mais do que
Jonas e Salomão” (Mt 12,41-42). Ele mesmo é critério de interpretação da
Escritura;
g) Jesus diz aos discípulos que
ele têm vantagem sobre os profetas. “Os profetas desejaram ver o que vocês
estão vendo e não puderam” (Lc 10,23-24). Ele mesmo é o ponto de
chegada da Escritura;
h) Na discussão com os judeus
sobre a legitimidade do seu ensinamento, Jesus se declara maior que Abraão: “Antes
que Abraão fosse eu sou” (Jo 8,52-58);
i) Atacado pelos escribas em nome
da Escritura e da Tradição, ele se defende com argumentos tirados da própria
Escritura, da vida de Davi (Mc 2,25-26);
j) Em tudo o que fazia para
cumprir sua missão como Messias, Jesus se orientava pela profecia do Servo de
Javé. Lido nesta nova perspectiva, o
Antigo Testamento ajudava o povo a perceber
como o Reino de Deus estava se
realizando dentro dos fatos da vida de Jesus e da Sua própria vida. Jesus
realizava a Promessa. Por isso, o povo se reconhecia nele e encontrava nele a
Boa Nova de Deus!
· Os sinais do
Reino presentes na vida
O Reino que estava chegando era
tudo aquilo que encontrou em movimento com a chegada e o anúncio de Jesus. Era
a própria história progredindo. “O Reino está no meio de vocês!”
Mas não era fácil definir
claramente o que vinha a ser o Reino presente no meio do povo. O Reino era algo
que a pessoa experimentava quando estava em contato com a pessoa de Jesus e com
a comunidade por ele criada.
Para ajudar o povo a entender
esta misteriosa presença do Reino dentro dos fatos da vida, Jesus usava as
parábolas. São muitas: semente, campo, pérola, joio e trigo, grão de mostarda,
rede, pesca, fermento, sal, tesouro, dracma perdida, devedor implacável,
trabalhadores da vinha, casamento do filho do rei, as dez virgens, bom
samaritano, juiz iníquo, filho pródigo, ovelha perdida etc. “Quem tem
ouvidos para ouvir ouça!” (Mt 13,9) as parábolas provocam o povo para ir
descobrindo as coisas de Deus a partir da sua própria experiência de vida.
Os pobres entendem esta linguagem
(Mt 11,25), pois o Reino anunciado por Jesus é deles
(Mt 5,3-10). É para eles (Lc 4,18). Os outros,
porém, os de fora, eles ouvem, mas não entendem (Mc 4,11,12). Muitas vezes, nas
discussões com os fariseus, Jesus tentou corrigir a visão que eles tinham de
Deus, da lei e da história.
Mas não conseguiu. Eles não se
abriram e se agarravam à antiga leitura que faziam do Antigo Testamento. Não
permitiam o novo entrar.
“MUDEM DE VIDA”
· A difícil
exigência
Jesus não pede: “Observem a Lei e
a Tradição!” Ele pede metanoia,isto é, mudar o modo de pensar e de agir.
Este é o apelo de mudança que a chegada do Reino traz consigo. Sem esta mudança
radical o povo não poderá entender a mensagem do Reino anunciada por Jesus. A
mudança que a chegada do Reino está pedindo é uma mudança que engloba todos os
aspectos da vida das pessoas, do povo e da nação. Se não acontecer esta
mudança, “se vocês não se converterem, todos vão perecer do mesmo
jeito” (Lc 13,3.5), isto é, do jeito que galileus pereceram pela violência
de Pilatos, assim todos irão perecer pela violência repressiva do Império.
Não houve a mudança que ele
pediu! Quarenta anos depois, no ano 70, esta profecia tornou-se triste
realidade! Jerusalém foi totalmente destruída.
· Mudar por que?
Ao longo dos séculos anteriores
foi acontecendo uma inversão total dos valores que se expressa na própria
religião. A religião oficial já não revelava o rosto de Deus ao povo: o
mandamento de Deus foi anulado pela tradição (Mc 7,8); o ser humano estava em
função da Lei (Mc 2,27); o templo levava vantagem sobre o amor aos pais (Mc
7,10-13); a misericórdia foi diminuída em favor da observância (Mt 9,13); a justiça
praticada pelos fariseus já não revelava o Reino (Mt 5,20). Na prática, o amor de
Deus estava separado do amor ao próximo. Os escribas e os fariseus,
responsáveis pela transmissão da fé, tinham esquecido as necessidades dos
pobres (Lc 13,15-17), impunham pesos pesados ao povo (Mt 23,4) e, assim,
bloqueavam a entrada do Reino
(Mt 23-13).
· Mudar o que?
Já não bastava consertar um ou
outro defeito. Era necessário fazer tudo de novo! Metanoia! Nascer de
novo (Jo 3,3), reconhecer o próprio erro, aceitar a nova leitura do passado e
iniciar uma prática nova no rumo que Jesus propunha: viver o amor a Deus no
amor ao próximo (Mt 22,39); estender que o sábado é para o homem
(Mc 2,27) e que o objetivo da lei
é imitar Deus que faz chover sobre todos (Mt 5,43- 48); viver a eleição divina
não como um privilégio que separa dos outros povos, mas como um serviço que
leva a inserir-se no meio deles (Mt 20,28; Lc 17,10). Numa palavra, aprender
que ninguém tem o direito de marginalizar como “pecador”, “impuro”, “pagão”,
“maldito” ou ignorante
(Jo 7,49; 9,34) aqueles a quem Deus acolhe
como filhos (Mt 5,45). Realmente, fazer uma mudança assim era o mesmo que morrer
e nascer de novo. “Quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus”
(Jo 3,3). Muitos não quiseram fazer esta mudança radical, reagiram contra Jesus
e decidiram eliminá-lo (Jo 12,37-41; 11,45-54; Lc 19,42).
“ACREDITEM NESTA BOA NOTÍCIA”
· Realiza-se a
esperança do povo
Toda esta novidade que começou a
existir ao redor da sua pessoa, Jesus a designou com A Boa Nova do Reino. Expressão
antiga, usada pela primeira vez pelo profeta Isaías para designar a Boa Nova
da volta dos exilados (Is 40,9; 52,7; 61,1).
Desde então, todos esperavam pela
Boa Nova do Reino. Nos gestos e nas palavras de
Jesus esta esperança se realiza.
O acesso a essa Boa Nova só era
possível através da fé: “Acreditem na Boa Nova!”. Fé não só na mensagem,
mas também na pessoa de Jesus, tal como ele era e se apresentava: jovem,
operário, sem estudo, vindo da Galiléia, sem ser doutor, sem ser
sacerdote, sem ser da classe dirigente, mas que tem a coragem de dizer a todos:
“Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim”
(Jo 14,6). “Quem vê a mim vê o Pai!” (Jo 14,9). Sem esta fé na
palavra e na pessoa de Jesus não era possível entender a Boa Nova do
Reino que ele anunciava!
Embora a Nova não fosse
tão Boa para os doutores e escribas, ela era realmente Boa para
os pobres (Lc 4,18). Pois através da prática e da palavra de Jesus, o povo pobre,
que vivia marginalizado como “ignorante”, “maldito”, “impuro” e “pecador” (Jo
7,49; 9,34), tinha novamente acesso a Deus. Jesus liberou a entrada. A presença
amiga de Deus tornou-se novamente, universal, aceitável para todos, livre das amarras
nas quais vinha sendo aprisionada havia séculos (Mt 23,13).
· Apontar a Boa
Nova de Deus na vida do povo
A Boa Nova do Reino, o que é? Não
é uma doutrina que se ensina, nem uma moral que se impõe. Não é um catecismo
que se decora, nem uma ideologia que se transmite. A Boa Nova do Reino é um fato
da vida em que Deus está presente, atuando, libertando o seu povo com
poder, realizando o seu plano se salvação, mostrando que é Rei, Senhor da
história. Mas não só! Ela é uma palavra que tira o véu este fato e
revela ao povo a presença gratuita de Deus aí dentro; é uma atitude, um testemunho,
uma prática, que confirmam esta presença de Deus; é todo o passado
do povo que o confirma e o ratifica: “Era isto que esperávamos há muito
tempo!”.
Anunciar a Boa Nova do Reino, o
que é? É apontar fatos concretos pelos quais se veja onde o Reino de Deus está
acontecendo e interpretá-los de tal maneira que apareça para fora esta dimensão
escondida da presença vitoriosa de Deus na história do povo. Foi assim que
Jesus respondeu a João Batista: “Vão dizer a João o que estão vendo e
ouvindo!” (Mt 11,4-5).
3. A FINALIDADE
DA BOA NOVA ANUNCIADA POR JESUS
O Evangelho de Marcos ensina como
o cristão deve anunciar a Boa Nova de “Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc
1,1). Em primeiro lugar (Mc 1,2-5), a Boa Nova não pode cair de pára-quedas
dentro da vida do povo, mas deve vir como resposta às suas esperanças (Mc
1,2-3), através de pessoas bem concretas (Mc 1,4-8). Ela terá o seu momento de
inauguração (Mc 1,9-11), de provação (Mc 1,12-13) e de proclamação (Mc
1,14-15).
Em seguida (Mc 1,16-45),
escolhendo bem os fatos, Marcos descreve a finalidade que a Boa Nova do Reino
quer alcançar na vida do povo. Os sete pontos que seguem são os sinais do
Reino. Podem servir como critério de avaliação para examinar de perto a
qualidade da nossa prática evangelizadora:
1) Criar comunidade (Mc
1,16-20)
Vocação dos primeiros discípulos.
A Boa Nova tem como primeiro
objetivo congregar as pessoas em torno de Jesus e, assim, criar comunidade.
2) Fazer nascer consciência
crítica (Mc 1,21-22)
Admiração diante do ensinamento
de Jesus.
A maneira como Jesus anuncia a
Boa Nova faz o povo criar consciência crítica com relação aos escribas, seus
líderes.
3) Combater o poder do mal (Mc
1,23-38)
Expulsão de um demônio.
A Boa Nova combate e expulsa o
poder do mal que estraga a vida humana e aliena as pessoas de si mesmas.
4) Restaurar a vida para o
serviço (Mc 1,29-34)
Cura da sogra de Pedro e de
muitos outros doentes.
A sogra levantou-se e começou a
servi-los. A Boa Nova cuida da vida doente e procura restaurá-la para o
serviço.
5) Permanecer unido ao Pai
pela oração (Mc 1,35)
Jesus ora num lugar deserto.
Faz parte da Boa Nova permanecer
unida a raiz que é o Pai, através da oração.
6) Manter e aprofundar a
consciência da missão (Mc 1,36-39)
Anúncio da Boa Nova pelas aldeias
da Galiléia.
A Boa Nova exige que o
missionário não se feche nos resultados já obtido, mas que mantenha sempre a
consciência da missão.
7) Reintegrar os
marginalizados na convivência (Mc 1,40-45)
Um leproso é curado e enviado aos
sacerdotes.
A Boa Nova acolhe os
marginalizados e os reintegra na convivência humana.
Estes sete pontos marcaram o
anúncio da Boa Nova realizado por Jesus e pelos primeiros cristãos. Será que
marcaram os 500 anos de Evangelização da América Latina? Será que marcam a
evangelização que fazemos hoje? Onde esta Boa Nova entra hoje na vida humana,
ela sem dúvida alguma encontrará resistências e provocará conflitos. É o que o
Evangelho de Marcos sugere, apresentando logo em seguida cinco conflitos entre
Jesus e os líderes religiosos da época (cf. Mc 2,1-3,6).
Marcos informa ainda que, no momento
de chamar os apóstolos, Jesus “chamou a si os que ele queria chamar, e foram
até ele. E constituiu o grupo dos Doze, para que ficassem com ele
e para enviá-los a pregar, com autoridade para expulsar os demônios”
(Mc 3,13-15). No mesmo chamado Jesus coloca duas finalidades. Chama para “estar
com ele” e pra “enviá-los a pregar e a expulsar os demônios”. O estar com
Jesus dá o conteúdo para a pregação e a autoridade para
expulsar o demônio. Ou seja, a
comunidade é a plataforma de onde parte a missão e lhe dá consistência.
4. A FONTE DA
BOA NOVA DO REINO ANUNCIADA POR JESUS
· Jesus, igual a
nós em tudo, menos no pecado
Jesus é o Filho de Deus. Este
título define seu relacionamento com o Pai e tem a ver com a constituição da
sua pessoa. Esta verdade não se prova, mas se aceita na fé. Ela foi objeto de
lenta e grata descoberta por parte dos cristãos. Jesus é o Messias.
Este título tem a ver com seu
relacionamento com os homens e com a sua missão dentro do plano de Deus. Fruto
da total gratuidade do Pai é o fato de Ele não ter mandado qualquer um para
realizar a missão do Messias, mas sim o próprio Filho, igual a nós em tudo
menos no pecado (Hb 4,15). “Sendo de condição divina, Jesus não se apegou à
sua igualdade com Deus.
Pelo contrário,
esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo” (Fl 2,6-7). “Sendo
rico, se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza” (2Cor 8,9). Jesus
não era cidadão romano e não tinha nenhum título, não fez curso com Gamaliel,
não estudou em Jerusalém, não tirou diploma; não era da classe sacerdotal; não
era levita nem fariseu; não era escriba nem publicano nem essênio nem saduceu.
Não tinha proteção de nenhuma classe. Jesus era um leigo, operário, agricultor.
Era conhecido como o carpinteiro (Mt 13,55). Nasceu fora de casa, numa
estrebaria. Desde o seio materno, sofreu as conseqüências do sistema opressor
dos romanos (Lc 2,1-7). Viveu trinta anos em Nazaré da Galiléia (Lc 3,23),
terra “dos gentios”. Na comunidade local não era presbítero nem coordenador.
Para se saber como foi a vida de Jesus, basta descrever a vida que qualquer
nazareno daquele tempo, pôr o nome de Jesus e se saberá como foi a vida do
Filho de Deus durante trinta dos trinta e três anos em que viveu nesta terra no
meio de nós. Realmente, sendo rico, ele se fez pobre, igual a nós em tudo!
O que para uns era condenação do
destino, para Jesus se tornou a manifestação da vontade do Pai. Jesus nasceu
pobre e continuou sempre do lado dos pobres. Nascer pobre era a expressão da
vontade do Pai. Continuar do lado dos pobres era a decisão do Filho querendo
ser obediente ao Pai. Jesus nunca buscou uma saída individual, nunca buscou
privilégios para si. Continuou pobre, igual a eles em tudo, até o fim, até a
morte de cruz! (Fl 2,8).
· Obediente ao Pai
em tudo
Aqui estamos diante do mistério
da vida de Jesus. A sua união com o Pai. Jesus disse a Maria e José: “Então,
vocês não sabem que devo estar na casa do meu Pai?” (Lc 2,49). Os pais não
entenderam a resposta (Lc 2,5). Ele disse aos discípulos: “O meu
alimento é fazer a vontade daquele que me enviou, e terminar a obra que Ele me
deu” (Jo 4,34). Os discípulos estranharam a resposta (Jo 4,33). Ele
disse aos judeus: “O Filho, por si mesmo, nada pode fazer, mas só aquilo que
vê o Pai fazer” (Jo 5,19).
Os judeus estranharam a conversa
de Jesus sobre o Pai e queriam matá-lo (Jo 5,18). Jesus disse a Filipe: “Filipe,
você ainda não me conhece? Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). E também Filipe
estranhou a conversa de Jesus sobre o Pai (Jo 14,8).
Estas e outras frases mostram que
a comunhão entre Jesus e o Pai não era automática, mas sim fruto de uma luta
que ele travava dentro de si para obedecer o Pai em tudo e viver em comunhão
com Ele. Jesus nunca permitiu que alguém interferisse neste segredo mais
profundo da sua vida. Não teve medo de provocar conflitos, mesmo com as pessoas
mais queridas, para poder manter a comunhão com o Pai. Os que tentaram
desviá-lo receberam respostas duras ou reações inesperadas: Pedro: “Vai
embora, Satanás!” (Mc 8,33). Os irmãos: “Quem é minha mãe?’ Quem
são meus irmãos?” (Mc 3,33). Os
apóstolos: “Vamos para outros lugares! Pois foi para isto que eu vim!”
(Mc 1,38). Os parentes: “Vão vocês! A hora de vocês está sempre aí! A minha
hora ainda não chegou!” (Jo 7,6.8). João Batista: “Vão dizer para João o
que estão vendo e ouvindo!” (Mt 11,4).
A preocupação de estar sempre
unido ao Pai pela obediência foi o eixo da vida de Jesus, a fonte da sua
prática evangelizadora, o seu alimento diário (Jo 4,34). “Ao entrar
no mundo ele afirmou: Eis-me aqui! Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade!”
(Hb 10,5-7). Ao deixar o mundo, fez revisão e disse: “Está tudo consumado!”
(Jo 19,30). Jesus sofreu e foi tentado a entrar por outros caminhos (Mt 4,1-11;
Mc 8,33). Lutou para ser fiel (Hb 5,8). Teve de rezar muito para poder vencer (Hb
5,7; Lc 22,41-46). Mas venceu. Ninguém, nada, nunca, nenhuma autoridade, em momento
algum, conseguiu interferir neste segredo mais profundo de Jesus. Os que tentaram
esbarraram numa muralha impenetrável, numa liberdade impressionante.
Ele foi obediente até a morte, e
morte de Cruz. Por isso, Deus o exaltou! (Fl 2,9).
· Revelar o Pai
pela obediência profética
Jesus procurava ser fiel à
experiência que tinha do Pai. Pois a Boa Nova do Reino não é uma doutrina, ou
um catecismo a serem transmitidos, nem uma moral ou uma disciplina a serem
impostas, nem uma idéia nova a ser ensinada, mas é a face do Pai a ser revelada
ao povo, sobretudo aos pobres! A obediência de Jesus não era disciplinar, mas
sim profética. Na obediência ao Pai estava a raiz da liberdade de Jesus. Por
causa desta obediência, ele obedecia à tradição dos homens e a criticava. A obediência
só tem sentido enquanto revelação do Pai! Por causa, dela a voz de Jesus era e
é a voz do Pai. Pois quem obedece não fala em nome próprio, mas sim em nome daquele
a quem obedece.
Em Jesus, a obediência não é uma
simples virtude ao lado das outras virtudes.
A obediência faz com que ele se
torne totalmente transparente, pura referência. Pela sua obediência profética
até a morte, Jesus esvaziou-se de si mesmo e deixou que o Pai reinasse em
sua vida. Por isso, tudo o que Jesus faz é revelação do Pai. A união que
assim nasce entre ele e o Pai é tão perfeita que os dois se identificam um com
o outro: “Quem me vê, vê aquele que me enviou” (Jo 12,45). É a comunidade
perfeita no Espírito.
Como a vontade do Pai se
manifesta em Jesus? Ele dizia: “Por mim mesmo nada posso fazer: eu julgo
segundo o que ouço”(Jo 5,30). “O Filho por si mesmo nada pode fazer, mas
só aquilo que vê o Pai fazer” (Jo 5,19). Como e onde Jesus via e ouvia
o que o Pai queria dele?
a) Na Sagrada Escritura. Ela é a
fonte de autoridade (Lc 4,18): orienta Jesus na realização da sua missão como
Servo (Mc 1,11); oferece respostas contra as tentações (Lc 4,4.8.12).
b) Nos fatos. João Batista confrontou
Jesus com as normas da tradição (Mt 11,3). Jesus confronta João com os fatos
(Mt 11,4). Iluminados pelas escrituras eles revelam a vontade de Deus.
c) Nas pessoas e suas atitudes.
Diante da resposta da mulher Cananéia, Jesus mudou de opinião e disse: “Seja
feito como tu queres!” (Mt 15,28). Na atitude da mulher Jesus leu o que o
Pai queria dele.
d) Nos pais. Jesus foi para
Nazaré com seus pais e “era obedientes a eles” (Lc 2,51). Esta submissão,
porém, não era cega. Ele teve a coragem de criticá-los (Lc 2,49).
e) Na sua condição de pobre.
Nascer pobre era para ele a expressão da vontade do Pai. Continuar do lado dos
pobres era a decisão do Filho querendo ser obediente ao Pai.
f) Na tradição e nos superiores.
“Façam o que eles dizem, mas não façam o que eles fazem!”
(Mt 23,3). Reconhece a
autoridade, mas critica o comportamento e os desvios (Mc 7,13). Jesus
nunca cita as autoridades, mas fala com autoridade (Mc 1,22)
g) Na luta. No Horto das
Oliveiras, o anjo veio e o ajudou para ir até o fim. Suou sangue, mas encontrou
a paz na entrega total ao Pai (Lc 22,43-44).
h) Na oração. Nas noites passadas
junto ao Pai, ele vive a sua experiência de Filho e descobre o que o Pai pede
dele (Lc 5,16; 6,12; 9,18.28-29; 11,1).
Não havia uma instância ou uma
norma preestabelecida que guiasse Jesus na descoberta da vontade o Pai. Não
havia uma lista de normas para ele se orientar. Havia, isto sim, aquela atenção
permanente voltada para o Pai. “Faço sempre o que lhe agrada” (Jo
8,28-29). Jesus deixou um testemunho muito bonito a este respeito quando disse:
“O mundo vai saber que amo o Pai e que faço o que o Pai me mandou. Levantem!
Vamos embora daqui!” (Jo 14,31). Levantou e foi para o Horto, onde começou
a Paixão.
5. CONCLUSÃO
A missão de Jesus se resume em
fazer brilhar o rosto de Deus na vida do povo.
“Faze brilhar sobre nós a tua
face e seremos salvos” (Sl 80,4). O rosto de Deus é Luz que brilha na
escuridão (2Pd 1,19). É a raiz da liberdade e da ressurreição. É a eterna Boa
Nova para o povo oprimido. Sem este rosto tudo escurece. Não há disciplina nem
lâmpada nem vela que possam substituí-lo. Quem não o conhece talvez não sinta a
sua falta. Mas quem, como Jesus, o encontrou, já não sabe viver sem ele. O encontro
com Ele revoluciona a vida, faz descobrir o que está errado em nós e ao redor
de nós, e anima para a luta, a fim de recolocar tudo no seu devido lugar, como Deus
o quer.
“Como o Pai me enviou, eu
envio vocês!” Dizendo isto, Jesus soprou sobre eles e lhes disse: “Recebei
o Espírito Santo” (Jo 20,21-22). Com a ajuda do Espírito, as comunidades
reproduzem nas suas vidas a prática evangelizadora de Jesus e, assim, serão a
revelação do Pai ao povo. Na mesma medida em que soubermos viver e anunciar a
Boa Nova do Reino seremos a Igreja de Jesus; seremos a “carta de Cristo,
reconhecida e lida por todos os homens” (2Cor 3,2.3).
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