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quarta-feira, 25 de abril de 2012

Jesus Cristo

JESUS CRISTO

Frei Vicente Artuso, OFMCap
Dicas para um conversa a partir do projeto de Jesus
São subsídios que podem ajudar a montar uma palestra. São muitos os pontos de vista e também a bibliografia é ampla. Coloquei aquilo que a meu ver é mais interessante para a pastoral. Além de livros, existem também vídeos sobre Jesus, a ser encontrados nas Paulinas.

1.      INTRODUÇÃO
Quem é Jesus? Cada um tem uma opinião na sua cabeça (Cf. Mc 8,27-30). Faria um breve diálogo sobre o que pensam. Faria também outra pergunta: O que significa Jesus e sua mensagem hoje?
Poderia também apresentar uma ficha de Jesus como é apresentada no livrinho: Carlos Mesters, Com Jesus na contra mão, ed.Paulinas, pg.13-18. Este livrinho é um ótimo subsídio!
Os evangelistas apresentam cada um uma face diferente do mesmo Jesus. Isso revela a familiaridade e a liberdade da comunidade pregar o Evangelho. Como se fosse 4 filhos a falar da imagem do Pai. Cada um dirá algo diferente do mesmo Pai. Porém falará a partir da sua experiência, do seu relacionamento. Assim é melhor falar-mos da nossa experiência com Jesus e da experiência que tiveram as pessoas que o conheceram no seu tempo (Ver também Tua Palavra é vida vol.5, Seguir Jesus nos Evangelhos, p.14-16, sobre a encarnação de Jesus. Cf. Garcia Rúbio, O encontro com Jesus Cristo vivo, Paulinas. Dados da história de Jesus, pg. 14, O que Jesus não foi, p.24).

1.1.JESUS E SEU TEMPO:
Contexto histórico breve sobre a sociedade no tempo de Jesus, os grupos, as tendências e ideologias (Tua palavra é vida, vol. 5 pg. 14-16; Outros livros sobre o tempo de Jesus: Eduardo Lohse, Contexto e Ambiente do Novo Testamento, Aí há uma descrição dos grupos políticos e religiosos do tempo de Jesus. Ver também: Emile Morin, Jesus e as estruturas do seu tempo, Paulinas, Se preferir um livro de conteúdo mais aprofundado ver: Joachim Gnilka, Jesus de Nazaré mensagem e história, Vozes, 2000)

1.2. A PRÁTICA DE JESUS:  

1.2.1. Jesus convive com os marginalizados;

1.2.2. Jesus acolhe e não discrimina a mulher;

1.2.3. Jesus combate as divisões injustas;

1.2.4. Jesus combate os males que estragam a vida;

1.2.5. Jesus desmascara a falsidade dos grandes;(Tua Palavra é vida vol.5).

1.3.O SEGUIMENTO DE JESUS:

1.3.1. Condições para seguir Jesus.

1.3.2. Características da comunidade; destacaria a comunidade modelo (tua palavra é vida vol. 5 p.31-31; Com Jesus na contramão, p. 83-84). Importante o objetivo da missão de Jesus, e o jeito como foi envolvendo os discípulos. Sobre a comunidade missionária ver Carlos mesters, Com Jesus na contramão p. 76-78) a boa nova “Ele está vivo”.
Outros livros muito úteis: 1) CNBB (Carlos Mesters) Caminhamos na estrada de Jesus,- O evangelho de Marcos, 1997; 2) Joseph A. Fitzmeyer, Catecismo Cristológico, Loyola, 1997 – Um catecismo denso que responde questões cristológicas a partir do novo testamento. 3) J.Mateus F. Camacho, Jesus e a Sociedade do seu tempo, Paulinas, 1992; 4) Comissão Teológico-histórica do grande Jubileu do ano 2000, Cristo ontem, hoje e sempre, ed.Paulinas 1996; 5) Luis Schiavo e Valmor da Silva, Jesus: milagreiro e exorcista, Paulinas 2000. Ótimo livro sobre a questão das curas nos evangelhos, com uma visão crítica e encarnada dentro do contexto histórico do império romano; 6) Catecismo da Igreja Católica.

Segue um artigo que escrevi no ano 2002.
2. SACRIFÍCIO E SACRIFICIALISMO.
Existe uma teologia (discurso sobre Deus) que não é a teologia do Deus verdadeiro que salva mas a teologia dos deuses falsos, por isso ideologia. Trata-se da teologia idolátrica que justifica os sacrifícios feitos à ídolos cruéis, como podem ser o Estado e o Capital (Leviatã, Moloc); especialmente o Capital estrangeiro com suas propostas e exigências (FMI, ALCA etc). Eles bem representam a estrutura da religião econômica (Hugo Assmann e Franz Hinkelammert, A idolatria do Mercado,Vozes 1989 p.341). Em vista do capital, com a busca desenfreada do lucro, impõem-se sacrifícios que limitam a vida humana, mas não salvam.  O Estado e o Capital associados ao mercado representam hoje, o Dragão, a Besta e o Falso profeta do livro do Apocalipse. Estas eram as imagens simbólicas do império romano que dominava e oprimia. Estes ídolos, com suas falsas promessas de segurança, iludem o povo a se sacrificar sem questionar ou desconfiar das reais motivações. Eles se salvam às custas da miséria, fome, doença de milhões de seres humanos nos continentes. Na África, Ásia, nos países endividados da América Latina e  no Brasil, a fome e doença são as feridas do povo. São frutos do “sacrificialismo”.

Em nome da religião econômica se apregoa a devoção aos ídolos, anti-humanos. Como diz o Salmista, “eles tem boca mas não falam, tem olhos mas não vêem” (Sl 115). São os reinos animalescos como apregoa o profeta Daniel (Dn 7). Eles não tem sentimentos e não tem projetos para humanizar. Seus projetos estão voltados para si, para o poder e o domínio. O livro de Daniel nos conta que no contexto do anti-reino, de projetos que não promovem os direitos do ser humano, aparece alguém parecido com

homem (Dn 7,13-14). Este pode compadecer-se, tem coração. O ser mais parecido com gente, verdadeira criatura humana (Dn 7,14) no Novo Testamento é Jesus. O Filho de Deus encarnado na história “revelou o homem ao próprio homem”(Gaudium et Spes e Redemptor hominis). Ele iniciou seu ministério no meio da humanidade mais esquecida, desfigurada. Ele foi para a Galiléia, região desprezada da qual diziam: “Pode vir algo bom da Galiléia”?  Conforme a carta aos Hebreus, Jesus o Filho de Deus, “foi em tudo semelhante aos irmãos para ser misericordioso e fiel, sumo sacerdote, para expiar os pecados do povo”(Hb 2,17). O sacrifício de Jesus, está ligado à solidariedade, na luta contra o sofrimento. Jesus ultrapassou os limites do sacrifício com a própria morte, para revelar que a solidariedade em favor dos irmãos é que redime a humanidade dos pecados. Porém “o sacrifício ou sofrimento, tem sentido quando é resultado da luta contra o sofrimento” (Leonardo Boff. Paixão de Cristo, Paixão do mundo, passim). Sacrificar, do latim: sacrum facere, significa tornar sagrado. O sagrado não pode ser deslocado do seu lugar real, ligado à uma vida nova, num contexto de novas relações;  para algo fora do nosso alcance. A transcendência do reino, o sagrado, tem seu lugar teológico na imanência das realidades humanas a serem transformadas. Do contrário o que chamamos sagrado, ou sacrifical pode tornar-se idolátrico, ou  “sacrificialista”. O sacrifício por sagrado que seja não tem fim em si. Jesus não veio ao mundo para morrer na cruz, mas para salvar. A morte violenta, foi resultado de um processo iníquo. Ele se rendeu como muitos sacrificados que não tem como escapar. Ele “como ovelha, foi levado ao matadouro”. Foram eles que o mataram.  Não fosse o pecado, pelo qual a morte entrou no mundo com o sacrifício de milhões de inocentes, a história do cristianismo poderia ter um percurso menos triste. O projeto final: é que não haja, mais crime, violência, morte de inocentes, nem choro, nem lágrimas. Deus não quer este sacrifício. O justo não precisa morrer para salvar os injustos, nem os injustos precisam ser mortos para acabar com a injustiça. Pode haver outro caminho. É possível, conforme o projeto de Jesus, consertar a cana rachada, manter acesa a mecha que ainda fumega, sem maiores violências (Cf. Is 42,1-4; Mt 12,20). A redenção do sofrimento portanto, não precisa chegar ao extremo do sacrifício de uma vida. O sacrifício tem seus limites dentro da vida. Redimir não é matar, mas trazer para a vida. É resgatar ( Hebraico:gahal) a pessoa para vida em abundância. Passou o tempo em que havia os que se entregavam sem resistência ao martírio de sangue em vista da santidade. O martírio (do grego: martiría, testemunho) era contado por muitos, como o extremo do dom da vida com derramamento de sangue. Não é necessário buscar a cruz, ou cultuar o sofrimento como sacrifício extremo, para produzir vida. É claro, infelizmente as cruzes estão presentes nas curvas da caminhada e não podem ser ignoradas (Carlos Mesters, Com Jesus na contramão, ano 2000 passim) Elas são fruto das contingências históricas. O documento de Puebla lembra: “A cruz que é sofrimento dos pobres, dor dos injustiçados, famílias sem casa, agricultores sem terra, continua plantada bem alto, no calvário da humanidade”. É preciso lutar contra ela. “Tomar a cruz de cada dia”(Lc 9,23) como disse Jesus, é assumir a tarefa diária. Naquele contexto de sofrimento, perseguição de toda sorte contra os cristãos, que eram um “pequenino rebanho” (Lc 12,23); o risco de passar pelo martírio era maior. Muitos morreram e derramaram seu sangue. É nesse contexto de perseguição por causa do reino e dos valores nobres que também se entende, o “perder a vida” nos Evangelhos (Lc 9,24; Mt 28)  Isto no contexto de resistência foi interpretado como “semente de novos cristãos” (Tertulhano). Por isso o memorial da celebração eucarística é também memorial da morte e ressurreição de Cristo (1Cor 11,24-25); com os co-redimidos: “os que lavaram suas vestes no sangue do cordeiro”(Ap 7,14). A celebração eucarística é o memorial (hebraico: zikaron) da morte inseparável da ressurreição, para denunciar os sistemas sacrificiais que não geram vida mas matam. Porém é também anúncio da ceia escatológica, quando todos se sentarão na mesma mesa para participar dos bens messiânicos (Cf. Is 25,6-8; Lc 14,15-24).Não é necessário esperar que milhares sejam vítimas da fome, da violência, das doenças, para que os governos criem projetos que gerem vida. O ser humano foi criado para realizar-se como pessoa, numa sociedade mais justa. Por isso os projetos sociais em favor da vida, da cidadania sem fome, sem doença, são os mais urgentes. O ministério de Jesus privilegiou o projeto em favor dos famintos (são seis relatos de multiplicação de pães nos evangelhos!) e dos doentes (o maior número de relato de milagres são curas). Busquemos realizar o reino para um mundo mais fraterno e mais irmão, nos animando uns aos outros para trabalhar com vontade e organização. Cremos nos projetos da vida que pode triunfar. Aos que acreditam, vale a pena o sacrifício por esta causa.  



3. CARACTERÍSTICAS DA RELIGIÃO IDOLÁTRICA

ü  Devoção ao ídolo;

ü  Adoração de outros deuses desde que sejam a-históricos

ü  Experiência da transcendência absolutizando valores relativos aos interesses individuais. (pg.43-ultimo parágrafo).

ü  Culto ao ídolo total sem apostasias. O paradigma econômico não tolera infrações.

ü  A realidade do domínio do ídolo é a   sistematização. Também para o sistema os valores absolutos são absolutização dos valores necessários no interior do paradigma econômico. Trata-se de uma perversa infinitude que apresenta como absolutos certos valores limitados.

Os valores de uso valem enquanto valores de intercâmbio comercial. As necessidades humanas são transformadas em meras necessidades do mercado. Compra-se não porque é necessário, mas porque é conveniente. Tais “necessidades” são tornadas reais pela máquina propagandística do mercado que oferece o produto.

Ø  Para o sistema é valor aquilo que o limite estabelece como admissível. O que se opõe a ordem não pode ser valor.

Ø  Jesus foi sacrificado, como defensor daquilo que para o sistema são antivalores (justiça, fraternidade, o amor ao próximo, predileção pelos pequenos e pobres, misericórdia, igualdade), isto é o que não se encaixam nos interesses da classe dominante.

Porém a ressurreição de Jesus convalida o que o limite imposto pelo sistema invalida e reduz a antivalores.

Ø  Modelo de uma teologia antidolátrica: A comunidade primitiva dos Atos dos Apóstolos era antidolátrica porque propunha uma ética comunitária, fundamentada pela intensificação histórica do amor a Deus com o amor ao próximo.

Ø  Portanto uma teologia antidolátrica em primeiro lugar procura identificar onde está a idolatria para depois propor uma vivência de um novo relacionamento baseado no amor a Deus e ao próximo que leva a rechaçar os ídolos. O projeto do reino é histórico e concebe a transcendência do reino, na imanência das realidades terrestres dentro de uma sociedade mais justa e igualitária. Os valores reais são aqueles que defendem a vida; antivalores são os que ameaçam e destroem a vida

  

4.  ANTI-SACRIFICIALISMO E SACRIFÍCIOS INEVITÁVEIS

Ø  As teorias sacrificiais são em ultima instância a raiz teológica do sistema opressor, pois legitimam os sacrifícios mais cruéis.

Ø  Trata-se de um sacrificialismo com um caráter compulsório que inclui tanto as coações acompanhadas do uso da força em graus variados, como “o não ter outra saída”. É a compulsionariedade dos ajustamentos funcionais dentro da lógica de um sistema opressor   independente se as pessoas chegam a adesões voluntárias ou não.

Ø  Toda luta contra o sistema  inclui o sacrifício para alcançar uma meta. A questão que se coloca é como justificar os sacrifícios inevitáveis para chegar a abolir os sacrifícios inaceitáveis?

Ø  Ser anti-sacrificialista  tem como significado em primeiro lugar opor-se às vitimas ses coativas e aos sacrifícios compulsórios que são impostos em nome de um esquema de valores funcionais e uma ordem social.

Ø  Em segundo lugar ser anti-sacrificialista significa tomar uma posição radicalmente contrária a qualquer tipo de exigência social no sentido de contribuir com sua quota de sacrifícios para o bem comum. Deixando qualquer contribuição à absoluta iniciativa individual (p.352).

Como o problema do sacrificialismo coincide com a violência institucionalizada (Nisto está a compulsionariedade do sistema sacrificial), a não violência como princípio radical , corresponde ao anti-sacrificialismo fundamental da mensagem cristã.(p.353) O caráter sistêmico dos sacrifícios institucionalizados exige ser afrontado com empenho que exige uma quota de sacrifícios. Qual a medida dos sacrifícios incluídos na luta contra o sistema sacrificial da violência institucionalizada? O sacrificialismo aparece onde se adotou uma planificação econômica que impossibilita a participação e iniciativa das pessoas. Isso nos países socialistas. Porem nos países subdesenvolvidos  dentro do sistema capitalista neoliberal, o sacrificialismo estrutural atinge diretamente o não atendimento das necessidades básicas das pessoas. Na lei do mercado o que conta não são as necessidades das pessoas mas o valor mercantil do produto. A competição em vista do lucro no meio empresarial cria sistemas sacrificiais implacáveis. A funcionalidade dos valores obedece a esquemas rígidos dentro de um espaço e tempo determinados. Tais valores funcionais admitidos que para o sistema tem valor de transcendência. Trata-se do reducionismo da transcendência dentro dos limites dos valores funcionais. Esta é a transcendência do ídolo. Para esse sistema sacrifical o que importa é um culto a divindades a-históricos, que não interfiram na mudança do sistema. (Cf.Pg.356 s.p). Importa que as pessoas não questionem os sacrifícios em vista do ídolo do mercado (Consenso de Waschington; sistema neoliberal ;lei do mercado).

Os cristãos necessitam de uma teologia antiidolátrica e anti-sacrificial. Para isso é preciso repensar a legitimação dos sacrifícios que a luta pela transformação do mundo exige. A luta contra o sistema não pode se transformar em outro sistema sacrifical que não gera a vida. Como o limite dos sacrifícios representa a morte, os sentidos para os sacrifícios giram em torno da morte, da imolação, da destruição sacrifical. No fundo celebra-se a morte de alguém ou de alguma coisa. A vida é celebrada nestas visões do sacrifício, como algo que brota além do limite da morte. “Se o grão de trigo não morrer....” Mas será que os sacrifícios devam ser concebidos necessariamente a partir do limite da morte? A imagem da morte necessária aparece mais evidente na teologia da vítima expiatória, ou substitutiva (bode expiatório), cujo valor sacrifical é inseparável da morte.

O primado da unidade no amor ao próximo com o amor de Deus, da solidariedade que gera vida fundamenta os sacrifícios em vista da vida. É necessário tomar cuidado ao propor alternativas. A teologia deve ter em mente que os sacrificialismos que são cálculos de mortes necessárias, com vítimas necessárias, com promessas de vida eterna, ainda continua. É o sacrifício de uma constante:  “viva a morte”. Nossa teologia não pode repetir os reducionismos da sacralização dos sacrifícios. (pg.361- ler.) Uma teologia libertadora não pode ser sacralizadora das instituições como se todo e qualquer sacrifício  tenha sentido em vista de plenificar a vida humana. A vivência da afirmação da vida  e da fraternidade é uma experiência real da transcendência no interior da história. A afirmação da vida está acima dos sacrifícios.     (Fr. Vicente Artuso)


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